Quando o corpo vive em alerta: entendendo o trauma além da mente
- Mylena Melhem
- 26 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
Costumamos pensar o trauma como algo que fica “na mente”, nas lembranças ou pensamentos. Mas, pela Teoria Polivagal, entendemos que o trauma é, antes de tudo, uma experiência do corpo, de como o sistema nervoso aprende a reagir diante do perigo.
Para explicar isso de forma simples, quero usar este vídeo de um cachorrinho pequeno enfrentando um cachorro grande.
No início, o cachorro pequeno sente medo, mas há um vidro entre eles. Mesmo diante da ameaça, o corpo dele percebe que existe uma proteção. Com essa sensação relativa de segurança, o sistema nervoso ativa o sistema simpático, o conhecido modo de luta ou fuga. Nesse caso, ele escolhe lutar: late, se mostra corajoso, tenta se impor.
Mas quando o vidro é retirado, tudo muda.
Agora o corpo percebe o tamanho real da ameaça e entende que não há condições de lutar nem de fugir. É aí que entra o sistema parassimpático dorsal, o mecanismo de congelamento.É aquele momento em que a resposta simpática se torna intensa demais (o coração dispara, a boca seca, a sensação sobe) e o corpo trava, vem a paralisia. Não é fraqueza, é um freio biológico de defesa.
Esse movimento (do simpático para o parassimpático dorsal) acontece o tempo todo na natureza. E acontece conosco também.
A grande diferença é que nós, humanos, por razões sociais, culturais e emocionais, muitas vezes não conseguimos descarregar a energia dessas experiências ameaçadoras. A resposta de sobrevivência fica represada. E é aí que o trauma se estabelece.
Mesmo quando o perigo já não existe, o corpo pode continuar preso nesses estados, funcionando como se ainda estivesse sob ameaça.
Algumas pessoas permanecem por muito tempo no modo luta ou fuga: sempre tensas, alertas, hiperreativas.Outras ficam no congelamento: sensação de paralisia, desligamento, dificuldade de agir ou sentir.
Então, o que é tratar o trauma?
Trabalhar o trauma é, aos poucos, reensinar o corpo a sentir segurança.É sair de padrões de resposta ao perigo que ficaram “viciados” por meses, anos ou até décadas.
E isso nos leva a uma pergunta importante:
Como isso se integra com a medicina e com os antidepressivos?
Os antidepressivos podem ajudar a afrouxar esse estado constante de ameaça, trazendo, do ponto de vista bioquímico, uma sensação maior de segurança. Isso pode permitir que a pessoa saia um pouco do estado de hiperativação ou de colapso.
Mas aqui é preciso cuidado.
O medicamento não é o tratamento do trauma em si.Ele cria condições para que o trabalho psicoterapêutico, que reorganiza essas respostas profundas, possa acontecer.
Quando o remédio é usado apenas para dissociar, anestesiar ou “esquecer” a dor, sem contato com o que ficou solto, com o fio que conduz ao trauma, ele pode se tornar contraproducente.
Por isso, o antidepressivo é apenas uma parte do tratamento.Ele oferece alívio, dá um impulso inicial, mas não substitui o processo de reconstrução interna.
Muitas pessoas dizem: “O remédio parou de fazer efeito”. Nem sempre é isso. Muitas vezes, o conflito de base continua ali. E, se não é escutado, o corpo encontra outras formas de se expressar.
Gastrite. Tremores. Pressão alta. Crises de ansiedade.
O corpo comunica. O tempo todo.
É complexo? Sim.
É inconveniente? Muitas vezes.
É difícil? Também.
Por isso, para mim, prescrever medicamentos traz um imperativo ético: convidar a pessoa a perceber o que o corpo está tentando expressar através desses “sintomas incômodos”.
Seguimos, então, integrando.
Os medicamentos ajudam a restabelecer a bioquímica cerebral saudável e trazer alívio, “sair da inundação” de sensações.
A psicoterapia permite olhar para as raízes, atravessar sensações, reconstruir a relação com os sintomas e, pouco a pouco, fazer as pazes com o corpo.




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