Por que desatenção nem sempre é TDAH/PDAH e quando investigar
- Mylena Melhem
- 16 de jan.
- 5 min de leitura
Atualizado: 19 de jan.
*TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade) ou PHDA (Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção)
Por que evitei falar sobre TDAH por tanto tempo
Eu não costumo falar sobre TDAH com frequência. E isso não é por falta de interesse no tema. Pelo contrário. O que me fez evitar esse assunto por muito tempo foi a quantidade de informações equivocadas que circulam hoje, especialmente na internet. Muitas delas são apresentadas de forma alarmista e simplificada, o que favorece a sobre-identificação com os sintomas.
É muito comum que uma pessoa leia uma lista de sinais e pense imediatamente: “isso sou eu”. A partir daí, conclua que tem aquele diagnóstico. Esse movimento, apesar de compreensível, pode levar a confusões importantes. Para evitar isso, eu vinha sendo bastante cautelosa em falar sobre TDAH. Mas percebi que o silêncio também abre espaço para a desinformação.
Falar com cuidado, profundidade e responsabilidade é uma forma de combatê-la.
O que vejo na prática clínica
Tenho recebido cada vez mais pessoas no consultório com queixas que remetem ao TDAH. Algumas delas, de fato, não têm TDAH de forma alguma. Outras, curiosamente, nunca haviam cogitado essa possibilidade e preenchem todos os critérios diagnósticos.
Essa discrepância mostra o quanto é importante diferenciar sintomas isolados de um diagnóstico clínico bem estabelecido.
O que é, de fato, o TDAH
O TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento, caracterizado por desatenção, hiperatividade e impulsividade persistentes. Esses sintomas precisam estar presentes desde a infância e interferir de forma significativa no funcionamento social, acadêmico ou ocupacional.
Não se trata de dificuldades pontuais, nem de algo que surge apenas em momentos específicos da vida.
Procrastinação não é sinônimo de TDAH
Um exemplo clássico de confusão é a procrastinação. Procrastinar não é, por si só, um sintoma de TDAH. Adiar tarefas pode acontecer por diversos motivos, entre eles a hipovolia, que é a redução do ânimo e da energia, comum em quadros depressivos.
O estado de humor influencia diretamente a capacidade de executar tarefas, manter constância e cumprir obrigações.
Atenção e humor caminham juntos
O mesmo vale para a atenção. Dificuldade de manter a atenção voluntária, distração constante ou sensação de mente dispersa podem estar fortemente associadas a transtornos de humor, ansiedade, estresse crônico ou estados de hipotensão psíquica.
Nem toda desatenção é TDAH.
Desatenção como mecanismo de defesa
Além disso, a desatenção pode funcionar como um mecanismo de defesa. Em situações de estresse intenso ou experiências traumáticas, é comum que a mente desenvolva formas de proteção. Um desses mecanismos é a dissociação parcial da realidade.
Muitas pessoas passam a viver em um estado mais aéreo, distraído, como forma de se afastar emocionalmente de uma realidade difícil de sustentar.
Infância, ambiente e desatenção
Pense, por exemplo, em uma criança criada em um ambiente familiar disfuncional. Para lidar com conflitos constantes, essa criança pode aprender a se desligar emocionalmente, ficando frequentemente distraída, dissociada das próprias emoções e do ambiente.
Essa desatenção é TDAH ou é uma estratégia psíquica de sobrevivência? Uma coisa não exclui a outra. Inclusive, esse histórico pode coexistir com o TDAH.
Quando o diagnóstico faz sentido
Por isso, o ponto central não é apenas nomear um diagnóstico, mas entender se ele é útil. Um diagnóstico faz sentido quando muda a conduta e orienta um tratamento que realmente melhora a qualidade de vida.
Vale a pena investigar TDAH quando há prejuízos reais e quando o tratamento, medicamentoso e não medicamentoso, pode trazer benefícios concretos.
Tratamento sintomático, sim. E transformador.
Durante muito tempo, eu mesma critiquei o tratamento do TDAH por considerá-lo apenas sintomático. E, de fato, ele é. Mas isso não é algo menor.
Aliviar sintomas que causam prejuízo no trabalho, nos estudos, nos relacionamentos e na organização da vida pode ser profundamente transformador.
Se você se reconhece em alguns desses padrões e percebe prejuízos reais ao longo da vida, talvez valha a pena investigar com mais cuidado, em um espaço clínico adequado.
Caso clínico: quando a desatenção não foi vista como problema de saúde
Atendi um paciente por volta dos 30 anos que sempre foi visto como desorganizado, esquecido, alguém que se batia nas coisas, deixava tudo para a última hora e perdia tarefas importantes. Ele nunca se percebeu como hiperativo, e sua desatenção nunca foi entendida como uma questão de saúde.
Era rotulado como preguiçoso, desorganizado e relapso. Mas que “preguiça” é essa que existe desde a infância e atravessa todas as áreas da vida?

Depressão ou TDAH?
Poderíamos supor um quadro depressivo crônico. Ele negava sofrimento psíquico prévio até que a desatenção persistente trouxe tantos prejuízos que, aí sim, ele passou a apresentar sintomas depressivos.
Ele relatava impactos importantes na carreira, nos relacionamentos e na autoestima. Começava projetos com entusiasmo e, pouco tempo depois, perdia completamente o interesse, desperdiçando energia e investimento emocional.
Se eu tratasse apenas a ponta do iceberg, focando apenas na depressão, provavelmente não ajudaria de forma efetiva.
Regulando o humor para enxergar o funcionamento
Muitas vezes, é necessário primeiro tratar ansiedade ou depressão, que podem estar tão intensas que não nos permitem enxergar além daqueles sintomas. Após a estabilização do humor, conseguimos perceber padrões mais profundos de funcionamento psíquico.
É nesse momento que, muitas vezes, identificamos déficit de atenção e hiperatividade.
O impacto do tratamento
Esse paciente, ao iniciar o tratamento para TDAH, descreveu algo muito marcante. Pela primeira vez, conseguia pensar em uma coisa por vez e concluir tarefas. Sentia a mente mais calma, organizada e menos caótica. A mudança na qualidade de vida foi significativa.
TDAH vai além da produtividade
Os prejuízos do TDAH não se limitam ao desempenho acadêmico ou profissional. Atendi pacientes que buscavam ajuda porque pessoas importantes em suas vidas se sentiam não vistas ou não ouvidas.
Um deles dizia se esforçar muito para estar presente, mas só conseguia manter a atenção por poucos minutos antes de divagar. Seus parceiros interpretavam isso como desinteresse. Um relacionamento importante terminou por esse motivo, apesar do afeto envolvido.
Prejuízo em mais de uma área da vida
Para pensarmos em TDAH, é fundamental haver prejuízo em mais de uma área da vida. Não se trata de não saber ou não querer fazer tarefas domésticas.
É sobre, desde sempre, esquecer o fogão ligado, sair de casa sem a chave repetidas vezes, esquecer compromissos importantes apesar de estratégias de organização. Esse padrão persistente deve levantar a suspeita de déficit de atenção.
Impulsividade e busca de sensações
A impulsividade também pode se manifestar como busca constante por estímulos intensos. Direção imprudente, comportamentos de risco, envolvimento frequente em situações problemáticas.
Há pacientes que só conseguem manter atividade física se for algo extremamente adrenalínico, expondo-se constantemente ao perigo. Crianças e adolescentes que, diante de ideias impulsivas do grupo, não conseguem frear o impulso e acabam “aprontando”.
Nem toda criança agitada tem TDAH. Por isso, a escuta cuidadosa é essencial.
Testes ajudam, mas não substituem escuta clínica
Testes diagnósticos podem ser úteis, mas também podem confundir se não houver um profissional capaz de contextualizar, interpretar e integrar esses dados à história de vida da pessoa.
Tecnologia ajuda, mas não substitui o humano
Vivemos um momento em que ferramentas de inteligência artificial despertam curiosidade diagnóstica. Elas podem agregar informação, mas não substituem a escuta humana.
Um algoritmo não percebe ressonâncias emocionais, nuances, afetos ou o que se comunica nas entrelinhas. A complexidade humana exige outro humano no cuidado em saúde mental.
Quando investigar e como investigar
Se você sente que desatenção, hiperatividade ou impulsividade comprometem sua qualidade de vida desde a infância, vale olhar para isso com cuidado.
Em alguns casos, o diagnóstico pode ser fechado ao longo das consultas e o tratamento iniciado. Em outros, especialmente quando há sobreposição com ansiedade ou depressão, uma avaliação neuropsicológica pode ser indicada para complementar a avaliação clínica.
Considerações finais
Longe de incentivar diagnósticos apressados ou rótulos vazios, acredito que falar sobre TDAH com cuidado é fundamental. Uma boa consulta não serve para encaixar alguém em um diagnóstico a qualquer custo, mas para compreender o funcionamento psíquico e construir um caminho de cuidado que faça sentido para a sua história.




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