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Depressão Bipolar e Resistência à Insulina: por que precisamos olhar o paciente como um todo.

Recentemente, foi publicado no The Journal of Clinical Psychiatry um estudo que amplia de forma significativa nossa compreensão sobre a depressão bipolar refratária.

Imagem representando a conexão cerebro e instestino.

No estudo conduzido por Roger S. McIntyre e colaboradores (2022), pacientes com depressão bipolar refratária e resistência à insulina receberam metformina como estratégia adjuvante. Os resultados chamaram atenção: cerca de 50% dos participantes reverteram a resistência à insulina e, entre esses, houve melhora robusta dos sintomas depressivos já a partir da sexta semana. Além disso, observou-se redução da ansiedade, melhora do funcionamento global, alta taxa de resposta clínica significativa (81,8%) e boa tolerabilidade, sem piora de sintomas maníacos.


Esses achados reforçam algo que vem sendo discutido há algum tempo: saúde metabólica e saúde mental estão profundamente interligados. A sinalização adequada da insulina no cérebro parece desempenhar um papel relevante na regulação inflamatória, na plasticidade neuronal e, consequentemente, na resposta aos sintomas depressivos.


Ou seja, ver a pessoa como um todo, de modo integrado, é de suma importância. E o que isso significa?


Por exemplo, às vezes, meus pacientes não entendem porque, quero poder analisar as análises laboratoriais que fizeram. “Ué, mas eu vim para a consulta de psiquiatria, e esses exames quem me pediu foi a endocrinologista”, devem pensar.


Entretanto, como venho da Medicina de Família, sei da importância que é analisar a saúde como um todo. Esse estudo que citei no início do texto, mostra a influência de tratar a residência a insulina (que tem a ver com a glicemia elevada, com obesidade, etc) para o tratamento da depressão (no contexto do bipolar). Para além desse estudo, sabemos da influência por exemplo de anemia, hipotireoidismo e outras condições importantes de se afastar quando a pessoa queixa por exemplo de “desânimo”. Então, analisar a pessoa como um todo no contexto da saúde mental significa não se restringir à bioquímica cerebral, e conhecer a saúde da pessoa como um todo.


Mas, atenção, isso não significa só analisar os exames laboratoriais!


Quando falamos que o olhar integrativo é uma necessidade, logo fico com receio das pessoas interpretarem mal, por conta do “integrativa” muitas vezes ser entendida erroneamente como sinônimo de suplementação e outras práticas de modo protocolar e sem individualização.


O olhar integrativo que eu acredito ser muito importante na abordagem à saúde mental é perceber a fisiologia de modo integrado (em vez de neuroquímica isolada cerebral) mas também os aspectos psíquicos e sociais.



É olhar para estilo de vida, alimentação, atividade física, sono, manejo do estresse, para além de medicamentos ou suplementos que sim, podem ser usados de modo individualizado, quando houver indicação baseada em avaliação clínica e parâmetros laboratoriais.


O olhar integrativo significa entender que o processo saúde-doença não acontece em órgãos isolados. Ele acontece em pessoas inseridas em sua história e em seu contextos.


Integrar significa olhar o sistema como um todo, biológico, psíquico e social. Significa considerar como está a fisiologia como um todo (inclusive por alguns parâmetros laboratoriais), mas também como essa pessoa dorme, se alimenta, se movimenta, como está emocionalmente, qual sua história de vida, seus traumas, suas crenças, seu contexto familiar, econômico, cultural etc.


Isso rema na direção contrária da fragmentação do cuidado, construída pela lógica mercadológica e cartesiana de serviços saúde, em que cada médico cuida de um fragmento. Numa visão integrada, cada profissional de saúde pode até se concentrar em um sistema, em um tema, mas sem perder de vista que o paciente é “indivisível”, um ser humano, um sistema complexo, inserido em outros sistemas. Na prática, o exame que fez com o endocrinologista vou levar para a consulta de psiquiatria?! Sim!



E para além disso! Se você veio cuidar de uma tristeza persistente, acredito na abordagem em que pouco a pouco vou buscar conhecer mais e mais áreas da sua vida e, sempre que pertinente, dialogar com outros profissionais que façam parte do seu cuidado.


Então, o referido artigo contribui muito para apoiar nessa constatação de integração entre cérebro e metabolismo, mas pontuo de irmos além. Uma vez que já dizemos há décadas que a saúde é bio-psico-social, a prática clínica deve sim ser coerente com esse entendimento.

 
 
 

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