Quando o corpo já não aguenta: insônia, esgotamento e o custo de viver em esforço
- Mylena Melhem
- 21 de fev.
- 4 min de leitura
Atualizado: 24 de fev.
Vivemos em uma cultura que estabelece padrões rígidos de esforço e produtividade, especialmente em contextos como a faculdade, o trabalho e outras exigências sociais. Desde cedo, aprendemos que é esperado dar conta, render, produzir, cumprir metas, muitas vezes independentemente do custo subjetivo e corporal envolvido. Aos poucos, as pessoas vão se adaptando a esse ritmo, naturalizando a viver em um nível elevado de esforço e, para isso, passam a suprimir sinais internos de cansaço ou desconforto.

Nesse processo de "adaptação"à necessidades externas, as necessidades internas vão sendo colocadas em segundo plano. Descanso, lazer, contato com a natureza, tempo de ócio, relações nutritivas e até necessidades fisiológicas simples passam a ser tratadas como supérfluas ou negligenciáveis. A mensagem cultural predominante é a de que essas necessidades podem ser adiadas indefinidamente.
Com o tempo, esse funcionamento cobra seu preço. Muitas pessoas entram em estados de esgotamento físico e emocional e, não raramente, perdem a referência de como seria viver em um ritmo que respeitasse seus próprios limites. É como se o corpo fosse sendo silenciado por tanto tempo que, quando finalmente reage, o faz de maneira intensa, através do burnout, da ansiedade, da depressão. Mesmo com esses sinais intensos do corpo, às vezes a pessoa segue tentando silenciar para dar conta das demandas e entra em um modo de piloto automático, funcionando de forma desconectada, cumprindo tarefas, até que isso se torne novamente insustentável e gere uma nova crise.
Esses momentos de crise, embora profundamente desconfortáveis, podem ser compreendidos como oportunidades importantes. São convites do corpo, da mente, da alma para se reconectar, para escutar as mensagens que foram ignoradas por muito tempo. Mensagens que apontam que necessidades humanas fundamentais não podem ser negligenciadas a longo prazo sem um alto custo para a saúde física e mental.
E aí você pára para escutar: o que seu corpo precisa? E mais: O que brilha seus olhos? O que faz bater seu coração? O que te anima? Ainda lembra?
No meu próprio percurso, isso não foi diferente. Desde a faculdade de medicina, ou talvez até antes, aprendi que, para dar conta das exigências externas, era necessário suprimir as minhas próprias necessidades. Dormir pouco, ignorar sinais de cansaço, adiar lazer, estar sempre estudando ou trabalhando, ignorar limites físicos e emocionais. Esse padrão, longe de ser questionado, muitas vezes é romantizado e reforçado socialmente. Frases como “nossa, como você consegue dar conta de tudo isso?” funcionam como reforços, elogios, e acabam validando comportamentos profundamente antinaturais, que contribuem para o adoecimento e não para uma vida saudável.
Com o tempo, esse reforço externo vai moldando a relação que temos com nós mesmos. Nosso valor passa a ser balizado por nossa produtividade.
Pessoalmente, eu aprendi que assim ia ser valorizada ou amada. E foi um longo processo tentar desconstruir essa associação. Hoje, mesmo tendo alguma consciência de tudo isso, ainda é um aprendizado em andamento: conseguir me reconectar com as minhas necessidades, observar os sinais do corpo, que comunica de forma às vezes muito clara o que meu sistema precisa. Necessidades simples, como se permitir descansar sem culpa ou se ir ali só pra se divertir, nem sempre são fáceis de acessar depois de tantos anos de treino no sentido oposto.
Um exemplo muito concreto disso apareceu na minha relação com o sono. Precisei reaprender algo que deveria ser natural, relaxar o corpo para dormir. Eu precisava descansar, mas já não sabia mais como relaxar. Dormir deixou de ser um processo espontâneo e passou a exigir cuidado, atenção e reaprendizado. Foi nesse caminho que fui compreendendo, na prática e na clínica, o quanto o sono é um dos primeiros campos em que o corpo manifesta o custo desse modo de vida baseado em suprir demandas externas, esforço contínuo e negação de necessidades.
É a partir dessa vivência pessoal e profissional que nasce o curso sobre cuidado com o sono, voltado para pessoas que sofrem com alterações do sono.
Paradigma dos cursos: Aqui não entendemos o sintoma como um inimigo a ser combatido.
No curso de insônia, por exemplo, a proposta não brigar com a insônia, não é forçar o sono, mas construir, aos poucos, uma relação mais segura e acolhedora com o próprio corpo, com o relaxamento e com o descanso. Um convite para sair da lógica da produtividade, da ativação excessiva, da tensão e controle, para entrar em um processo de escuta, regulação e permissão.
Cuidar do sono, nesse contexto, não é apenas dormir melhor. É também questionar padrões internalizados, reconhecer limites, recuperar a capacidade de relaxar e, sobretudo, reaprender a respeitar as necessidades internas que, por muito tempo, foram tratadas como secundárias.
E esse movimento não se encerra no cuidado com o sono. Com o tempo, a minha intenção é desenvolver outros cursos que reúnam os aprendizados construídos ao longo da minha trajetória na medicina de família, na psiquiatria e na psicoterapia somática. Abordagens que não se limitam a compreender um sintoma isolado, mas que nos convidam a perceber o que esse "incômodo" convida a olhar.
Essa perspectiva parte do entendimento de que o processo saúde-doença não acontece apenas no plano cognitivo ou bioquímico, mas também no psíquico e se expressa no corpo, nos ritmos, nas relações e na forma como aprendemos a responder às demandas da vida.
Cuidar, nesse sentido, não é apenas tratar sintomas, mas criar condições para que o organismo possa recuperar capacidade de autorregulação, segurança e vitalidade.
Os cursos que pretendo construir caminham nessa direção, oferecendo espaços de aprendizagem, reflexão e prática, que ajudem as pessoas a se reconectarem consigo mesmas para, a partir disso, poderem interagir de modo mais saudável com seu contexto, com o mundo.




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