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Saúde mental do imigrante: entre visitar, permanecer ou voltar

13 de set.
7 min de leitura

Mudar de país pode representar um projeto, uma escolha, uma necessidade ou a busca por uma vida diferente. Mas a experiência de imigração também pode trazer mudanças profundas na identidade, nos vínculos, no trabalho e na sensação de pertencimento.



Nem sempre é fácil colocar uma experiência de dissociação em palavras. Algumas pessoas descrevem uma sensação de desconexão do próprio corpo, das emoções ou do ambiente. Outras percebem o mundo ao redor como estranho, distante ou pouco real.

Na minha prática clínica, atendendo brasileiros que vivem em Portugal e em outros países da Europa, algumas frases aparecem de diferentes formas:


“Aqui eu não tenho a quem recorrer.”

“Eu achei que fosse me adaptar mais rápido.”

“Esperava já ter construído uma rede de apoio.”

“Aqui eu não sei mais quem eu sou.”

“Aqui eu não sou ninguém.”


Essas falas não dizem respeito apenas à saudade de casa. Muitas vezes, existe um processo bem mais complexo acontecendo.


Morar fora também pode mexer com a nossa identidade


Ao mudar de país, não deixamos apenas um lugar.

Podemos deixar uma profissão, uma posição social, uma rotina conhecida, amizades, família, referências culturais e uma rede inteira de pessoas que sabiam quem éramos.


 Mulher observa Lisboa pela janela ao pôr do sol, representando a experiência de imigração, pertencimento e saúde mental do imigrante.

No novo país, coisas que antes eram automáticas precisam ser aprendidas novamente. A forma de se comunicar muda, os códigos sociais são diferentes e construir intimidade e pertencimento leva tempo.

Para algumas pessoas, existe ainda uma mudança importante na vida profissional. Alguém que tinha uma carreira estabelecida pode precisar começar de outra forma, trabalhar em outra área ou ocupar temporariamente uma posição muito diferente daquela que tinha antes de emigrar.

Por isso, quando alguém me diz “aqui eu não sei quem eu sou”, não escuto essa frase apenas como uma dificuldade de adaptação. Existe uma história, uma identidade e uma rede de pertencimento que foram atravessadas pela mudança.

E mesmo quando emigrar foi uma escolha desejada, isso pode coexistir com solidão, ansiedade, tristeza, frustração e sensação de não pertencimento.


Morar fora tem trazido sofrimento para a sua saúde mental? Realizo consultas online em saúde mental para brasileiros que vivem em Portugal e em outros países da Europa.


E quando chega a hora de visitar o país de origem?


Existe outro momento da experiência migratória sobre o qual se fala menos: voltar para visitar também pode ser difícil.

Para algumas pessoas, comprar uma passagem para o país de origem significa reencontrar pessoas queridas, comida, cultura, lugares e afetos.

Para outras, significa também se aproximar novamente de contextos que foram muito difíceis. É quase como se, junto com a passagem, viesse o medo de reencontrar alguns fantasmas do passado.

Esses “fantasmas” podem estar em uma casa, em uma relação familiar, em determinados lugares ou até na forma como a pessoa se sentia e se comportava naquele período da vida.

Isso aparece quando a pessoa deixou para trás relações familiares disfuncionais, experiências de violência, discriminação, pobreza ou ambientes nos quais não conseguia viver de uma maneira coerente com quem era.

Para algumas pessoas LGBT+, por exemplo, visitar a família pode significar retornar temporariamente a um contexto no qual sua identidade não era reconhecida ou aceita.

Então uma viagem que, vista de fora, deveria ser simplesmente uma ocasião feliz pode trazer ansiedade, alterações do sono, irritabilidade, sintomas físicos e medo.


“Tenho medo de chegar lá e voltar a ser quem eu era”

Essa é uma experiência que considero particularmente importante.

Quando voltamos a um lugar muito associado a experiências anteriores, não encontramos apenas pessoas. Encontramos cheiros, sons, ruas, casas, formas de conversar e dinâmicas relacionais que o nosso corpo conhece.

Na perspectiva da Psicoterapia Somática, essas experiências podem funcionar como pistas associadas a memórias difíceis e desencadear respostas que parecem acontecer antes mesmo de conseguirmos organizá-las racionalmente.

A pessoa adulta que construiu uma vida diferente pode perceber que, diante de determinada pessoa ou contexto familiar, começa novamente a se comportar de formas muito antigas.

Pode ficar em alerta, se calar, ter dificuldade de colocar limites ou entrar em uma espécie de “piloto automático”.

Algumas pessoas descrevem isso como a sensação de serem sugadas de volta para o passado.

E talvez seja justamente aí que esses “fantasmas do passado” ganhem tanta força: não porque a pessoa tenha realmente voltado a ser quem era, mas porque aquele ambiente pode reativar sensações, emoções e formas de responder que foram construídas naquele contexto.

Isso não significa que tudo o que foi construído desde então desapareceu.

Uma parte importante do trabalho é justamente ajudar a pessoa a permanecer conectada com uma informação fundamental: eu estou visitando um lugar do meu passado, mas eu não sou mais a pessoa que vivia aqui naquele momento.


Como se preparar emocionalmente para visitar a família?


Quando existe uma história difícil, preparar uma viagem pode envolver muito mais do que comprar a passagem.

Podemos pensar concretamente:


Quanto tempo faz sentido permanecer naquela cidade?

É necessário ficar hospedada na casa da família ou existe outra possibilidade?

Quanto tempo quero passar com determinada pessoa?

Quais limites preciso estabelecer?

Quem faz parte da minha rede de apoio hoje?

Com quem posso falar se eu perceber que estou ficando emocionalmente sobrecarregada?

O que me ajuda a lembrar da vida que construí e de quem sou hoje?


Essas decisões aparentemente práticas podem ser importantes formas de cuidado.

Também podemos trabalhar estratégias de grounding e orientação ao presente. Perceber o ambiente atual, sentir os pés no chão, recorrer aos sentidos, reconhecer onde está e lembrar conscientemente que existe uma diferença entre revisitar uma experiência e voltar a viver naquela realidade.

O objetivo é favorecer presença, orientação e reconexão com o aqui e agora, especialmente quando o corpo começa a responder como se aquilo que aconteceu no passado estivesse acontecendo novamente.

Mas existe uma outra possibilidade que também considero importante: voltar não precisa significar apenas se proteger daquilo que fez mal.

Dependendo das pessoas, dos lugares e das relações envolvidas, uma visita também pode permitir reencontrar aquilo que ainda nutre. Pode ser uma pessoa com quem existe afeto, um lugar onde há boas memórias, uma comida, uma música, uma língua, uma paisagem, um jeito de estar junto ou partes da própria história que continuam fazendo sentido.

Talvez um dos objetivos seja justamente conseguir fazer essa diferenciação: do que eu posso me nutrir e do que eu preciso me proteger?

Com mais recursos, autonomia e possibilidade de escolha do que havia no passado, pode ser possível construir uma experiência diferente. Não necessariamente reparar tudo ou transformar relações antigas, mas escolher de que maneira, por quanto tempo e até onde se deseja entrar em contato com elas.

Isso não significa que toda relação precise ser revisitada ou reconstruída. Existem relações marcadas por violência, abuso ou dinâmicas profundamente nocivas em que manter distância pode continuar sendo a forma mais segura e saudável de cuidado. Reconciliação e reaproximação não são objetivos obrigatórios.

O importante é que exista escolha.


Quando a viagem começa antes do embarque


Às vezes, o sofrimento aparece semanas antes da viagem.

Algo que já encontrei algumas vezes na prática clínica é a pessoa começar a sonhar repetidamente que chegou ao país de origem e não consegue retornar para o país onde vive atualmente.

No sonho, alguma coisa acontece: as fronteiras fecham, surge uma nova restrição, falta dinheiro ou, por algum outro motivo, voltar se torna impossível.

Não é necessário interpretar esse sonho de maneira literal. Mas ele pode nos ajudar a perceber o quanto aquela viagem está mobilizando a pessoa e o quanto existe o medo de se sentir novamente presa a uma realidade da qual conseguiu sair.

Esse é um bom exemplo de como uma viagem pode mobilizar emoções muito antes de acontecer.


E quando voltar é uma escolha definitiva?


Existe ainda outro momento delicado: decidir que morar fora já não faz mais sentido.

Às vezes, depois de anos vivendo em outro país, a pessoa percebe que quer voltar.

Pode querer estar perto da família, recuperar determinados vínculos, mudar sua vida profissional ou simplesmente concluir que prefere viver no país onde nasceu.

Ainda assim, uma decisão desejada pode vir acompanhada de uma pergunta incômoda:

“Será que eu fracassei?”

Existe uma narrativa social de que emigrar representa uma espécie de progressão: você foi embora, conseguiu “vencer lá fora” e, portanto, voltar poderia significar que “não deu certo”.

Isso aparece inclusive nas perguntas que algumas pessoas escutam quando anunciam o retorno:

“Ué, mas por que você voltou?”

“Não deu certo lá?”

Só que permanecer em outro país não é necessariamente sucesso. E decidir voltar não é necessariamente fracasso.

Às vezes, voltar é justamente a consequência de conhecer melhor a própria vida e conseguir escolher onde se deseja vivê-la.


Eu também já estive do outro lado dessa experiência


Esse tema também atravessa a minha própria história.

Eu vivi como imigrante em Portugal durante dois anos e, depois, decidi voltar ao Brasil por escolha.

Por isso, algumas das questões que aparecem nas consultas não são completamente estrangeiras para mim: a experiência de construir uma vida fora, visitar o lugar de onde viemos e perceber o que ele desperta, e também escolher voltar.

Minha experiência não é a experiência dos meus pacientes, e não precisa ser.

Mas ter vivido parte desse percurso me ajuda a reconhecer algumas das complexidades que existem entre partir, permanecer, visitar e voltar.


Saúde mental também é poder construir pertencimento


No acompanhamento em saúde mental de pessoas que vivem fora do seu país de origem, não basta olhar apenas para sintomas isolados.

É importante compreender a rede de apoio, os vínculos, a identidade, o trabalho, a adaptação cultural, a história familiar e aquilo que foi deixado para trás.

Em alguns momentos, o cuidado pode envolver psicoterapia, estratégias de regulação e recursos somáticos para atravessar experiências emocionalmente difíceis. Em outros, sintomas de ansiedade, depressão, insônia ou outras condições precisam ser avaliados clinicamente e pode haver indicação de tratamento medicamentoso ou de ajustes em um tratamento já existente.

É nesse encontro que gosto de trabalhar: integrando o olhar da Medicina aos recursos da Psicoterapia Somática, para compreender tanto aquilo que está acontecendo na saúde mental quanto a forma como essas experiências aparecem no corpo, nas relações e na vida cotidiana.

Porque cuidar da saúde mental durante uma experiência migratória não significa necessariamente fazer com que a pessoa se adapte a qualquer custo.

Às vezes, significa ajudá-la a construir pertencimento onde está.

Às vezes, ajudá-la a visitar os fantasmas do passado sem perder o contato com quem é no presente, reconhecendo aquilo de que ainda pode se nutrir e aquilo de que precisa se proteger.

E, às vezes, ajudá-la a perceber que também pode escolher voltar.


Se você vive fora do Brasil e percebe que a experiência de imigração tem repercutido na sua saúde mental, podemos olhar para isso com cuidado. Realizo consultas online em saúde mental, integrando Medicina e recursos da Psicoterapia Somática. Atendo brasileiros no Brasil, em Portugal e em outros países da Europa.

 
 
 

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